A PAZ COMO CAMINHO


Cap. 3

Bases para a Cultura da Paz
Leonardo Boff

A cultura dominante, hoje mundializada, se estrutura ao redor da vontade de poder que se traduz por vontade de dominação da natureza, do outro, dos povos e dos mercados. Essa é a lógica dos dinossauros que criou a cultura do medo e da guerra.
Dos 3.400 anos de história da humanidade que podemos datar, 3.166 foram de guerra. Os restantes 234 não foram certamente de paz, mas de preparação para outra guerra.

Praticamente em todos os países as festas nacionais, seus heróis e os monumentos das praças são ligados a feitos de guerra e de violência. Os meios de comunicação levam ao paroxismo a magnificação de todo tipo de violência, bem simbolizado nos filmes de Schwazenegger como o "Exterminador do Futuro".

Nessa cultura, o militar, o banqueiro e o especulador valem mais do que o poeta, o filósofo e o santo. Nos processos de socialização formal e informal, a cultura da violência não cria mediações para uma cultura da paz.
Esta situação faz suscitar sempre de novo a pergunta que, de forma dramática, Albert Einstein colocou a Freud nos idos de 1932: é possível superar ou controlar a violência? Freud, realisticamente, responde: "É impossível aos homens controlar totalmente o instinto de morte. Esfaimados, pensamos no moinho que tão lentamente mói que poderemos morrer de fome antes de receber a farinha”.

Sem detalhar a questão, diríamos que por detrás da violência funcionam poderosas estruturas.

A primeira delas é o caos sempre presente no processo cosmogênico. Somos todos filhos e filhas do caos, daquela de imensa explosão, o big bang que ocorreu há 15 bilhões de anos. A expansão e a evolução do universo são formas de criar ordem neste caos e não permitir que seja só caótico, mas que seja também generativo. Mesmo assim, o caos sempre acompanha a evolução; por isso, ela comporta violência em todas as suas fases.

São conhecidas cerca de cinco grandes dizimações em massa, ocorridas há milhões de anos. Na última, há cerca de 65 milhões de anos, pereceram todos os dinossauros após reinarem, soberanos, 133 milhões de anos sobre a Terra. Possivelmente, a própria inteligência nos foi dada para pormos limites à violência e conferir-lhe um sentido construtivo.

Em segundo lugar, somos herdeiros da cultura patriarcal que instaurou a dominação do homem sobre a mulher e criou as instituições do patriarcado assentadas sobre mecanismos de violência, como o Estado, o exército, a guerra, as classes, o projeto da tecnociência, os processos de produção, como sistemática depredação da natureza.

Em terceiro lugar, essa cultura patriarcal usou da repressão, do terror e da guerra como forma de resolução dos conflitos. Sobre esta vasta base se formou a cultura do capital, hoje globalizada; sua lógica é a competição e não a cooperação; por isso, gera guerras econômicas e políticas e com isso desigualdades, injustiças e violências.

Todas estas forças se articulam estruturalmente para consolidar a cultura da violência que nos desumaniza a todos. Não basta sermos a favor da paz. Temos que ser contra a guerra que está imperando em vários lugares do mundo com uma dizimação criminosa de inocentes.

A essa cultura da violência há que se opor a cultura da paz. Hoje ela é imperativa.
É imperativa porque as forças de destruição estão ameaçando, por todas as partes, o pacto social mínimo sem o qual regredimos a níveis de barbárie.

É imperativa porque o potencial destrutivo já montado pode ameaçar toda a biosfera e impossibilitar a continuidade do projeto humano. Ou limitamos a violência e fazemos prevalecer o projeto da paz, ou conheceremos, no limite, o destino dos dinossauros.
Onde buscar as inspirações para cultura da paz?

Primeiro, na nossa própria vontade. Se não queremos a paz, nunca a alcançaremos. Em seguida é no próprio processo antropogênico, quer dizer, no processo pelo qual nos tornamos humanos dentro da evolução. Ele nos fornece indicações objetivas e seguras.

A singularidade do 1% de carga genética que nos separa dos primatas superiores, como os orangotangos e os gorilas, reside no fato de que nós, à distinção deles, somos seres sociais e cooperativos. Ao lado de estruturas de agressividade, temos capacidades de afetividade, compaixão, solidariedade e amorização. Hoje é urgente que desentranhemos tais forças de dentro de nós para conferir rumo mais benfazejo à história. Toda protelação é insensata.
O ser humano é o único ser que pode intervir nos processos da natureza e co-pilotar a marcha da evolução. Ele foi criado criador. Dispõe de recursos de re-engenharia da violência mediante processos civilizatórios de contenção e uso de racionalidade. A competitividade continua a valer, mas no sentido do melhor e não da destruição do outro. Assim todos ganham e não apenas um.
Há muito que filósofos da estatura de Martin Heidegger, resgatando uma antiga tradição que remonta aos tempos de César Augusto, vêem no cuidado a essência do ser humano. Sem cuidado ele não vive nem sobrevive. Tudo precisa de cuidado para continuar a existir. Cuidado representa uma relação amorosa para com a realidade. Onde vige cuidado de uns para com os outros, desaparece o medo, origem secreta de toda violência, como analisou Sigmund Freud.

A cultura da paz começa quando se cultivam a memória e o exemplo de figuras que representam o cuidado e a vivência da dimensão de generosidade que nos habita, como Madre Tereza de Calcutá, Gandhi, Dom Helder Câmara, Irmã Dulce de Salvador, Dalai Lama, Luther King e outros.

Importa fazermos as revoluções moleculares (Gatarri), começando pela célula que cada um de nós é. Cada um estabelece como projeto pessoal e coletivo a paz enquanto método e enquanto meta, paz que resulta dos valores da cooperação, do cuidado, da compaixão e da amorosidade vividos cotidiamente.

Talvez ninguém definiu melhor a paz do que a Carta da Terra, aquele documento universal que se destina a salvaguardar a dignidade da Mãe Terra e de todos os ecossistemas, aprovado no ano 2000 nos espaços da UNESCO em Paris. “Aí se define a paz como” a plenitude que resulta de relações corretas consigo mesmo, com outras pessoas, com outras culturas, com outras vidas, com a Terra e com o Todo maior do qual somos parte".

Como se depreende, a paz não nasce por ela mesma. Ela é sempre fruto de valores, comportamentos e relações que são vividos previamente. O resultado feliz é então a paz, talvez o bem mais ansiado e necessário da humanidade atual.

____________________________________________________________

Leonardo Botl - Brasileiro. Doutor em Teologia pela Universidade de Lund (Suécia). Doutor honoris (OUSO pela Universidade de Turim (Itália). Membro da Comissão Internacional da Carta da Terra. Foi professor de Teologia Sistemática e Teologia Ecumênica. Professor de Teologia e Espiritualidade, no Brasil e no exterior. Professor-visitante nas universidades de Lisboa (Portugal), Salamanca (Espanha), Harvard (EUA), Basiléia (Suíça) e Heidelberg (Alemanha). Seu nome está associado à Teologia da libertação e à defesa dos Direitos Humanos. Autor de Saber Cuidar - Ética do Humano; Compaixão pela terra; O Despertar do Águia; Ecologia: Grito da Terra, Grito dos Pobres; O Rosto Materno de Deus; Ética e Eco-espiritualidade; Ethos Mundial: Um Consenso Mínimo entre os Humanos; Ética e Moral: A Busca dos Fundamentos.

 

© Copyright 1996 - 2007 | Todos os direitos reservados