REVERÊNCIA PELA VIDA


Rubem Braga

Eu soube de Albert Schweitzer quando tinha 12 anos. Já ali fiquei comovido. Para ele nenhum sofrimento pode ser imposto sobre as coisas vivas para satisfazer o desejo dos homens. Um ser humano nunca pode ser sacrificado para um fim. Isso eu jamais esqueci.

"Era um homem grande, 1,90 de altura; obviamente, um homem forte. Seus cabelos castanhos já estão grisalhos. E tem um grande bigode. Seus olhos profun-dos são azuis e bondosos. E o seu piscar revela humor. Um veadinho se esfrega nele pedindo carinho e sua mão grande deixa a caneta so¬bre a mesa e delicadamente agrada o bichinho. Lá fora, os crocodilos algumas vezes dormem com suas enormes mandíbulas abertas. E há os hipopótamos, os pelicanos, a ve-getação impenetrável que se reflete nas águas barrentas do rio."

A aparência é de um homem so¬lidamente plantado nesse mundo. Mas não é verdade. Seu coração e sua cabeça se movem de acordo com uma lógica estranha de um outro mundo que só ele vê.

Nasceu em 1875, numa aldeia da Alsácia, filho de um pastor pro¬testante. Desde muito cedo ficou claro que ele era diferente. Sua sensibilidade para a música chega¬va à dor. Ele mesmo conta que, à primeira vez que ouviu duas vozes cantando em dueto - era muito pequeno ainda -, ele teve de encostar-se na parede para não cair. Outra vez, ouvindo pela primeira vez um conjunto de metais, ele quase desmaiou por excesso de pra¬zer. Com 5 anos começou a tocar piano. Mas logo se apaixonou pelo órgão de tubos da igreja na qual o seu pai era pastor. Aos 9 anos já era o organista oficial da igreja e tocava para os serviços religiosos.

Sentimento amoroso idêntico lhe provocava os animais. Ele relata que, mesmo antes de ir para a escola, lhe era incompreensível o fato de que as orações da noite que sua mãe ora¬va com ele apenas os seres humanos fossem mencionados. "Assim, quando minha mãe terminava as orações e me beijava, eu orava silenciosamente uma oração que compus para todas as criaturas vivas: “Oh, Pai, celeste, protege e abençoa todas as coisas que vivem; guarda-as do mal e faz com que elas repousem em paz".

Ele conta de um incidente acon¬tecido quando ele tinha 7 ou 8 anos de idade. Um amigo mais velho ensinou-o a fazer estilingues. Por pura brincadeira. Mas chegou um momento terrível. O amigo convidou-a a ir para o bosque matar al¬guns pássaros. Pequeno, sem jeito de dizer não, ele foi. Chegaram a uma árvore ainda sem folhas onde pássaros estavam cantando. Então o amigo parou, pôs uma pedra no estilingue e se preparou para o tiro. Aterrorizado ele não tinha coragem de fazer nada. Mas nesse momento os sinos da igreja começa¬ram a tocar, ele se encheu de cora¬gem e espantou os pássaros.

Seu amor pelas coisas vivas não era apenas amor pelos animais. Ele sabia que por vezes era preciso que coisas vivas fossem mortas para que outros vivessem. Por exemplo, para que as vacas vivessem os fazendeiros tinham de cortar a relva florida com ceifadeiras. Mas ele sofria vendo que, tendo terminado o trabalho de cortar a relva, ao voltar para a casa. as suas ceifadeiras fossem esmagan¬do flores. sem necessidade. Também as flores têm o direito de viver.

Também não podia contemplar o sofrimento dos animais em cativeiro. "Detesto exibições de animais ames¬trados. Por quanto sofrimento aquelas pobres criaturas têm de passar a fim de dar uns poucos momentos de pra¬zer a homens vazios de qualquer pen¬samento ou sentimento por eles."

O nome desse jovem era Albert Schweitzer e tinha tudo aquilo que uma pessoa normal pode desejar. Ele era reconhecido por todos. Mas havia uma frase de Jesus que o se¬guia sempre: "A quem muito se lhe deu, muito se lhe pedirá". E, aos 20 anos, ele fez um trato com Deus. Até os 30 anos ele iria fazer tudo aquilo que lhe dava prazer: daria concertos, falaria sobre literatura, sobre teologia, sobre filosofia. Aos 30 anos ele iniciaria um novo cami¬nho. E foi o que ele fez. Aos 30 anos entrou para a escola de medicina, doutorou-se em medicina e mudou¬-se para a África para tratar de uns pobres homens atacados pelas do¬enças e abandonados. E lá passou o resto de sua vida.

Dentro de Schweitzer viviam a música, a filosofia, o misticismo, a ética. E o seu grande desejo intelec¬tual era descobrir o princípio ético que movia sua vida. Ele conta que foi numa noite - ele e remadores na¬vegavam pelo rio para chegar a uma outra aldeia - seu pensamento não parava - e ele se perguntava - "qual é o princípio ético?". De repente, como um relâmpago, apareceu na sua cabeça a expressão: reverência pela vida. Tudo o que é vivo deseja viver. Tudo o que é vivo tem o direi¬to de viver. Nenhum sofrimento po¬de ser imposto sobre as coisas vivas para satisfazer o desejo dos homens. Traduzindo esse princípio universal para os seres humanos ele disse na sua Ética: "Um ser humano nunca pode ser sacrificado para um fim".
Eu soube de Schwcitzer quando tinha 12 anos. Fiquei tão comovi¬do que nunca mais o esqueci. Eu queria ser como ele. É importan¬te que as crianças e adolescentes tenham a quem admirar.

Criança, eu queria ser como esse homem que aos 30 anos fez um trato com Deus e descobriu o princípio ético universal: tudo o que é vivo tem o direito de viver. É importante que as crianças tenham a quem admirar.


Rubem Alves, 72 anos. Nasceu no interior de Minas Gerais e é escritor, pedagogo, teólogo e psicanalista.
Site: http://www.rubemalves.com.br./

 

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